
Parte III
Quando a lancha chegou no cais da cidade do Funchal já era noite, pois antigamente, estas viagens entre ilhas duravam cinco horas.
Tinha de começar a pensar rápido, pois teria de continuar a minha viagem, não podia parar, nem deixar rasto.
Atracada a lancha, coloquei rodinhas nos sapatos e pernas para que te quero, e foi um andar sem destino, sempre em direcção ao infinito. Quando se está cansado, o melhor mesmo, é apanhar um transporte. Entrei num horário, e sentei-me bem atrás, para não ser vista e deixei-me ir até o cansaço tomar conta de mim.
Quando acordei, estava na policia, sentada em cima de uma mesa, acordei sobressaltada e logo me enchi de terror, era agora que me matavam, era a minha mãe, irmã, cunhados, e policia, um interrogatório pesado, com as ameaças todas a pesarem sobre a minha cabeça, onde andei, que fiz ao dinheiro do bife, que fiz ao bife, onde dormi e comi, e tantas, tantas perguntas que até dava enjoos.
O motorista dizia, ia fechar o horário quando a encontrei a dormir e depois lembrei-me de ter ouvido na telefonia que andavam a procura de uma menina, correspondia à descrição que tinha sido feita: cabelos castanhos escuros curtos, vestido cor de rosa clarinho, peúgas brancas e sandálias inglesas castanhas e uma bolsinha azul, só se tinha esquecido de mencionar o bife................
Dizia a minha irmã, tem o diabo no corpo, cegou-me, eu ia levá-la a casa e cegou-me, enquanto pagava o táxi, desapareceu e não voltei a pôr-lhe a vista em cima, mais valia ter morrido à nascença, e toda uma série de impropérios e de insultos, que é melhor esquecer....
Claro, ela tinha razão, na sexta-feira ao fim do dia mandaram-me a um recado, comprar um bife para o meu cunhado, que só gostava de bifes, mas eu como sempre, distraí-me, começou a ficar muito tarde e sabendo o que ia acontecer, escapuli-me, assim, adiava o sofrimento, por mais algum tempo, e fui a pé até a casa dela, mas aí, não me escapei ao insultos e depois de ter informado a minha mãe que estava na sua casa, guardou o bife no frigorifico, mandou-me dormir, com a ameaça de que na manhã seguinte não me escaparia, pois ela deixar-me-ia em casa da mãe e aí eu ia ver.
Pois foi o que se viu.
Claro que ouve preocupação, claro, que a minha mãe me amava, hoje, acredito nisso, mas era uma forma estranha de mostrar amor, eu achava mais que era desamor, desespero, sei lá.....
O medo às vezes salva-nos às vezes mata-nos, depende, mas com medo podemos ir até ao fim do mundo, e podem perguntar-se e tu não tiveste pena, remorços, isso não existe na cabeça de uma criança com medo.
A minha criança quando tem medo, anda, anda, anda e não pensa, não tem tempo para pensar...
E depois os transportes eram gratuitos para as crianças.....
Fim
Noz-moscada, Abril de 2007 |